Vita




" Ser Homem é contar histórias ".









Nasci no Rio de Janeiro, Campinho, bairro simples, o berço de Fernanda Montenegro  ( 1829 -      ). Era agosto de 1969. O homem chegando na lua e eu chegando na terra. Até os 27 vivi no Rio, ou outro Rio, calmo, quase provinciano no subúrbio, e perto da Região dos Lagos, de praias maravilhosas: Saquarema, Cabo Frio , Búzios. Meus pais estão até hoje la em Tanguá, vizinha de Itaboraí, terra do nosso primeiro romancista, Joaquim Manoel de Macedo, autor de A moreninha (1820-1892 ). Também é de Itaboraí o pai do Teatro brasileiro, o muito empreendedor João Caetano    ( 1088-1863 ).

Passei a infância nas ruas suburbanas do Rio, Ricardo de Albuquerque, tempo de pipa, pião e fogueiras de festas juninas, ouvindo - durante a semana os sambas que as donas de casa ouviam em cantando - aos domingos -  os hinos protestantes  nos cultos evangélicos que me formaram espiritualmente a visão de Deus, o Mundo , o Homem, a Vida, cheia de mistério e de milagre. Já a adolescência foi vivida sob a força contemplativa dos laranjais desse de Itaboraí, nas Cachoeiras de Tanguá e , principalmente, na Biblioteca de Rio Bonito, onde cursei o Colegial ( Segundo Grau). Não gostava de número. Preferia e prefiro as palavras. Tornei-me professor primário. Hoje dizemos infantil . Acho melhor. Faz mais sentido, significa mais.

Sempre fui crente e temente a Deus, o Deus das Escrituras judaico-cristãs (Biblia, em grego, plural de Biblós, livros). Sou uma pessoa da Fé e do Livro. Da fé no Livro e nos livros. Aprendi com meu pai, minha mãe. Antes dessa coisa medonha, a pós-verdade da internet, dizer " está escrito " era dizer " a coisa é séria. Dizer " A Bíblia diz era afirmar isso assim assim, mais do que citação dogmática de um texto sagrado , procedia  : " Se Está Escrito é coisa séria, é verdade - respeite ! "

Sou parte do povo desse livro, o Grande Código, como diria Northrop Frye (1912-1991) , crítico literário e cultural canadense que muito admiro. Ele via nas cenas da Bíblia a base de toda a literatura ocidental. Aliás, ele e outro gigante que trago nas minhas estantes forradas de tesouros, o também crítico literário Harold Bloom (1830- ). Concordo com ele: os gregos, Shakespeare e o Antigo Testamento formam a base da nossa compreensão do que significa ser um ser humano. Mas não trata-se de excelente literatura - forma. A Bíblia, creio com os judeus , creio com os cristãos - é autoritativa. É mais que um livro - alias, O Livro - o Best Seller. É revelação de Deus. Se Deus é Deus, só posso saber dEle se ele revelar-se. Ele o fez. Criou e fez. Falou e disse. A Bíblia é essa narrativa, fé histórica, poética, viva. E me ensina que ser homem é contar histórias - e compor canções, fazer arte.

Sim, preciso falar da música ! " A vida sem a música seria um erro", bradou aquele doido aqui,  muito lúcido  ali chamado Nietzsche (1844-1900). Nietzsche, que não gostava nem um pouco de crentes - intolerante o bigodudo - dizia que duvidava do seu ateísmo ao ouvir Bach (1685-1750). Bach era o cara. Terminava suas partituras geniais com Soli Deo Gloria ( A Deus somente a glória ).

Minha música, pequeníssima, é bachiana nesse sentido e em outros ( Sting, outro que me inspira um bocado, forma e conteúdo, diz que estuda diariamente alguma obra de Bach no cello , para manter-se vivo musicalmente. Faz TODO o sentido ).

Eu canto para Deus, sobre Deus - e entusiasmado ( cheio de Deus , preenchido e possuído por Deus, para citar o grande Platão ). " Todo poema é sobre Deus, o amor ou a morte ", sugere acertadamente Susan Wise Bauer ( Como Educar sua Mente - O guia para ler e entender os grandes autores, Ed. É realizações ). Mesmo quando canto sobre amor - o que inclui a vida como um todo - ou sobre a morte - a grande crise ou certeza da vida, eu canto na Presença dEle, o Criador.

Nisso faço eco à grande Adélia Prado: a experiência da Beleza é prima-irmã da experiência religiosa, a percepção do Luminoso, do n, do Sagrado.

Eu canto por que o instante existe
E a minha vida está completa
Não sou alegre nem sou triste
- Sou poeta.

( Cecília Meireles, Motivo ) .

E, depois de descobrir a vida entre os livros e as pessoas - o educador - me vi músico, compositor, cantor - um liturgista, um trovador, como disse alguém e eu gostei. Então me vi pastor - um guardador de rebanhos, como cantou Pessoa. Vivo assim - palavras, melodias e almas. Lendo e relendo as Escrituras e ensinando-as, como Esdras, Jesus, Paulo. Cantando e contando sobre essas leituras - das palavras e das pessoas, eu e os outros, luz e sombra, choro e riso. E servindo a uma congregação de gente parecida comigo - santos pecadores, pecadores santos, como diria Lutero , um ajuntamento comunitário de seguidores de Jesus - minha igreja chama-se Comunidade de Jesus. Gosto muito desse nome. Resume bem o projeto e o sonho. A gente quer só e tão somente amar a Deus e às pessoas, servir , sobretudo aos mais necessitados e ser uma comunidade cristã bíblica, contemporânea e relevante. Por que os tempos são maus. Põe maus nisso.


( Cinha, minha esposa há duas décadas e amiga a quase três , Bernardo e Pablo, meus filhos, são minha companhia , testemunho e profunda alegria

É isso. Obrigado por me fazer companhia nesse caminho, seguindo ao Deus-que-virou-gente, Jesus de Nazaré. Escrevendo livros, cantando canções.  Cuidando de gente. Amando e celebrando a vida. Tudo é graça !

GB.
© Gerson Borges.