Como e porque ler Eugene Peterson

12 de mar de 2018




Foi Harold Bloom, o célebre crítico literário judeu norte-americano que tornou conhecida essa frase “como e por que ler” devido a um de seus famosos livros de incentivo à leitura profunda, formativa e significativa (“Como e Por que Ler” Editora Objetiva), ou seja, a Grande Literatura - os clássicos, como igualmente enfatiza o erudito italiano Ítalo Calvino (“Porque Ler os Clássicos”, Editora Saraiva). Parto dessa ideia-proposta e a aplico a Eugene Peterson, esse pastor, biblista, doutor em línguas semíticas, poeta, tradutor da Bíblia “A Mensagem”, Editora Vida), autor de verdadeiras obras-primas sobre teologia pastoral e espiritualidade cristã - entre as quais “Um Pastor Segundo o Coração de Deus”, “Debaixo da Planta Imprevisível” (depois chamado de “A Vocação do Pastor”) e “O Pastor que Deus Usa”. Livros que leio e releio, obcessivamente, minha alma elevada, desafiada - muitas vezes, esbofeteada quanto à minha incurável tendência à mediocridade vocacional.

Peterson não merece apenas uma atenciosa leitura devocional. Sua escrita é rigorosamente poética, inventiva, um primor de estilo. Além de cuidadosa exegese a partir da qual escreve seus extraordinários livros, esse descendente de imigrantes noruegueses, pastor presbiteriano aposentado, ex-pentecostal - ainda que na sua autobiografia (“Memórias de um Pastor”, Editora Mundo Cristão) ele defina-se como “presbicostal”, posto que na sua interpretação coerente e evangelical, “pentecostal é aquele que crê que as Escrituras ainda podem ser integralmente vividas hoje”. Ele é tão cuidadoso com as palavras que sua prosa pode ser descrita como sendo tão profética quanto poética. Livros dedicados à espiritualidade cristã, como “A Oração que Deus Ouve”, “Corra com os Cavalos” (sobre o gênio e o caráter de Jeremias), “Trovão Inverso” (uma das mais originais e devocionais leituras do Apocalipse jamais escrito, ao lado de “Arquitetura e Movimento”, de Jacques Ellul), “Uma longa obediência na mesma direção” ou ainda obras estupendas sobre a Bíblia e a arte da leitura espiritual - Lectio Divina , “nem tanto o que, mas o como lemos”, ele explica (“Maravilhosa Bíblia”, “A linguagem de Deus”, “A maldição do Cristo Genérico”). 

Em tempo: eu me irrito profundamente com os títulos em português que as editoras teimam em dar à sua obra. Uma afronta! Em geral, matam a metáfora que Peterson tão amorosamente persegue - e encontra - para traduzir a ideia-força de cada livro.

Esperando não soar professoral nem presunçoso, humildemente mesmo, caro leitor, eu diria:

1. Comece com “A Mensagem”. Leia sua versão preferida da Bíblia e compare a mesma passagem com esse texto vigoroso, cheio de vida e vitalidade. Você verá que não se trata nem do rigor formal Almeida Corrigida e muito menos da liberdade BNLH. É fiel como a primeira. E mais inovadora como a segunda - mas, todo o tempo, um lindo, contemporâneo e preciso texto bíblico. Bono Vox, vocalista do U2, afirma quevoltou a ler seriamente a Bíblia a partir d“A Mensagem”, essa linda paráfrase das Escrituras, “obra desse grande erudito e poeta cristão”.

2. Use o devocionário Um ano com Jesus(que a Editora Ultimato acaba de lançar). Um tesouro para enriquecer sua vida. Sandra Kerr, esposa no meu amigo e mentor Guilherme Kerr, que foi aluno de Peterson no Regente College, Canadá, certa vez me disse: “Gerson, não se deixe enganar com a singeleza e brevidade dos textos. Peterson é profundo e consegue dizer muito em uma ou duas frases!”.

3. Leia obras de “exegese espiritual”, como “Transpondo Muralhas”, um texto absolutamente fundamental para quem deseja desenvolver uma espiritualidade pé-no-chão: a obra passeia pela vida de Davi. Outro clássico!

4. Depois, como diria uma saudosa professora de francês, “se a gente gostar mesmo de um autor, precisamos frequentá-lo. Leia tudo de um autor que conquistar o seu coração e a sua atenção. Peterson certamente é “top three” da minha longa lista de autores-mentores;

Termino com um belo e proveitoso trecho de Um Ano com Jesus, cuja leitura mais que recomendo. É formação espiritual em grande estilo: 

“A oração é um modo de vida. Não é assunto a ser estudado. Não é uma técnica a ser aprendida. É uma vida em resposta a Deus. Não aprendemos sobre a oração, mas aprendemos a orar”.

Tríplice amém.
© Gerson Borges.